Vila de Coja, a princesa do Rio Alva
A vila de Coja, atualmente integrada no município de Arganil, foi outrora sede de um município fundado em 1260, vindo a ser extinto em 1853. Esta vila não foi esquecida pelo Rei D. Manuel e em 1514 viu o foral renovado. De vila e sede de município, Coja acabou por baixar ao estatuto de freguesia, vindo a ser extinta em 2013 durante a reforma administrativa promovida pelo governo em funções, quando foi agregada à freguesia de Barril de Alva, passando ambas a formar a união de freguesias com o nome das duas localidades.

Coja é atravessada pelas estradas N342 e N344, que se cruzam precisamente na localidade e banhada pelo Rio Alva, vindo a receber o apelido de “Princesa do Alva” dado o encanto do povoado, da natureza abundante, do ar puro e da beleza das suas paisagens, infelizmente devastadas pelos incêndios ocorridos em 2025. Aqui o Rio Alva é o elemento identitário da região, moldando a paisagem e despertando o desejo da descoberta. À semelhança de Coja e Barril de Alva, várias localidades cresceram nas suas margens, como testemunham os povos que ao longo dos anos nelas se instalaram.

O Rio Alva nasce na serra da Estrela e tem uma extensão aproximada de 106 km. Percorre um caminho sinuoso, entre encostas, rochas e escarpas, até desaguar no Rio Mondego, em Porto da Raiva. Neste cenário de beleza natural existe uma grande diversidade de fauna e flora típica dos cursos de água, que usufrui da sombra fornecida pela vegetação arbórea, como salgueiros, amieiros, freixos, choupos,… a par de peculiares formações rochosas onde xistos e calhaus rolados no leito do rio completam a paleta destes encantos.

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Conteúdos deste artigo
- Visita à Vila de Avô
- Pequeno roteiro pela estrada EM517
- Vila de Coja
- Taverna da Levada
- Património Edificado de Coja
- Ruínas do Castelo de Coja
- Praia Fluvial do Caneiro de Coja
- Piódão – Aldeia de Xisto
- Localização de Coja
- Onde ficar alojado em Coja
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Coja é ponto de passagem para outras localidades mais adiante e uma das ligações à Serra da Estrela. A estrada N342, que acompanha o serpentear do Rio Alva, vai encontrar-se com a N230 já perto da Ponte das Três Entradas, um monumento nacional de caraterísticas únicas, passando na continuidade pela Vila de Avô e já na N230 por Alvoco das Várzeas. Um pouco mais adiante pode visitar o Poço da Broca e admirar a beleza das suas cascatas, um lugar instagramável com restaurante mesmo ao lado – o Guarda Rios.



Como somos caravanistas, e como existe aqui na localidade um maravilhoso parque de campismo, entendemos estarem reunidas as condições necessárias a um fim de semana bem passado, tal como acabou por acontecer, mas Coja e a periferia tem potencial turístico muito forte e esse foi o principal motivo da nossa visita, a qual decidimos partilhar neste cantinho, dando algum contributo na divulgação do lugar e desta região.


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Vila de Avô
Após nos intalarmos, ao inicio da tarde seguimos em direção a Barril de Alva e posteriormente Vila Cova de Alva, embora apenas de passagem por estas localidades. Para este dia levávamos como destino a Vila de Avô, um dos pontos de visita inscrito na lista que preparamos para este fim de semana. Avô é uma localidade já bem antiga, estabelecida em couto no século XI por D. Fernando de Castela, mas os seus primórdios já vem da época romana.



Dos tempos medievais ainda hoje se destaca o que resta do castelo, localizado num promontório no centro da vila e mandado construir por D. Afonso Henriques. Há quem diga que a Igreja Matriz da Vila de Avó também terá sido mandada construir por D. Afonso Henriques, para a cerimónia de casamento da sua filha bastarda D. Urraca Afonso, a Asturiana.


O primeiro foral de Avô foi concedido a esta vila por D. Sancho I em 1187, tendo para isso cedido o senhorio de Aveiro. Em 1514 D. Manuel concede novo foral, que se manteve até 1855 quando o concelho foi extinto e a Vila de Avô passou a pertencer a Oliveira do Hospital. Da autonomia outrora concedida a esta vila ainda se conserva o Pelourinho, testemunho que se mantém firme em frente ao edifício onde funcionava os Passos do Concelho, o tribunal e a cadeia, o mesmo edifício onde na atualidade se encontra a junta de freguesia.

Tal como Coja, a Vila de Avô é igualmente banhada pelo rio Alva e é aqui junto da vila que desagua a Ribeira de Pomares. Além do castelo, são destaque nesta vila o património edificado, as ruas estreitas, o Pelourinho quinhentista, a ponte em arco de volta perfeita sobre o rio Alva, a Igreja Matriz, a ilha do Picoto e a praia fluvial, que juntamente com a ilha foi fortemente devastada pelas cheias de 2026.




Pela estrada EM517
Ao fim da tarde, no regresso a Coja foi impossível fazer o caminho direto, os cenários que encontramos “obrigaram-nos” a algumas paragens para contemplar a paisagem e em consequência alguns click’s na máquina fotográfica. Seguíamos pela EM517-1 quando surge o primeiro “apeadeiro”, em Vila Cova de Alva e logo depois outro, na Quinta do Urtigal. Aqui a estrada atravessa o Alva. Junto à ponte encontra-se uma fonte e nas laterais algumas poesias clamam ser lidas por quem passa, ou vem aqui saciar a sede.




Todo este cenário é complementado por zona de estacionamento, um restaurante, uma área de apoio a auto-caravanas e descida até ao rio facilitada, para alguns momentos de lazer. A tarde caía a bom ritmo, por isso as paragens teriam de ser bem geridas, até chegarmos a Coja ainda queríamos captar mais algumas fotos. Apesar disso, conseguimos o essencial do que nos tínhamos proposto para este dia.



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Vila de Coja
Ao fim da tarde deste mesmo dia deparamo-nos com as ruas de Coja bem movimentadas, contrariamente ao que esperávamos, a páscoa aproximava-se e talvez fosse esse o motivo, no dia seguinte era domingo de ramos. À noite, após o jantar decidimos fazer uma pequena caminhada, entre o parque de campismo e o centro da vila, uma caminhada que se fez num instantinho. Seguiu-se um café e algum convívio com as gentes locais num bar na zona mais antiga do povoado, no Ramiros – Casa da Cerveja.

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A zona mais antiga da vila de Coja não tem muito para ver, mas o pouco que tem é agradável e ao longo da nossa visita sentimo-nos como se estivéssemos em casa, a população pareceu-nos bem atenciosa. Era domingo de ramos e como pelo interior se vive mais as tradições religiosas, a meio da manhã fomos surpreendidos com a procissão dos ramos, que segundo a tradição daqui, faz a ligação entre a Capela do Sepulcro e a Igreja Matriz.

Aqui em Coja, a Capela do Sepulcro assume um papel de destaque na Páscoa, tanto na bênção dos ramos como na cerimónia do enterro do senhor. Após estes dois eventos, a imagem de Cristo fica guardada no interior da capela até ao ano seguinte. Esta Capela data do século XVI, mas em finais do século XIX foi reconstruída num plano mais elevado, para ficar a salvo das cheias do rio ao longo do inverno. No exterior da capela encontram-se três lápides escritas em latim, alusivas aos últimos momentos da vida de Cristo. Dizem o seguinte:
CECIDIT CORONA CAPITRIS NOSTRI – A coroa do nosso líder caiu.
VERE LANGORES NOSTROS IPSE TVLIT – Ele cura verdadeiramente os nossos sofrimentos.
HABITABIT IN SPELUMCA PETRAE FORTISSIMAE – Ele habitará a gruta da rocha mais forte.

(como católico que sou, acredito que a última se refere ao túmulo onde Cristo foi sepultado)
Até à hora de almoço, passamos algum tempo a cirandar pelas ruas da vila. Apesar de alguma movimentação própria de Domingo, sentia-se harmonia e paz na interação entre os populares, que de todos os lados iam aparecendo com seu ramo na mão. Subimos em direção ao adro da igreja e visitamos o interior da Igreja Matriz, um hábito nosso que fazemos conta de manter sempre que a igreja se encontre aberta. No interior merecem destaque o altar-mor, o contraste do branco com a talha dourada dão luz e um aspeto mais vistoso.

De volta à zona mais antiga da vila e com os dias a ficar ensolarados, ao fim da manhã o calor começa a fazer-se sentir e com ele a vontade de beber algo refrescante, uma imperial… A certa altura e sem procurarmos, eis que surge no nosso caminho a Taverna da Levada, um local que nos tinha aparecido como ponto de interesse visitar aquando a preparação do roteiro para este fim de semana. Naquele momento lembrei do velho ditado: “junta-se o útil ao agradável”…
Taverna da Levada



A Taverna da Levada é um espaço acolhedor e de cariz tradicional, onde o visitante pode encontrar um ambiente descontraído e decoração muito semelhante à decoração das tavernas antigas. O espaço conjuga as funções de café e restaurante, focando-se na oferta de sabores locais, petiscos e bons vinhos. Neste lugar o cliente encontra proximidade num ambiente simples, devendo no entanto admitir que pode não agradar a todos. Além da decoração do espaço, fomos encontrar aqui algumas curiosidades, como umas frases curiosas sobre vinho, e canecas que parecem não ter fundo.
-“Adoro cozinhar com vinho, às vezes até ponho um pouco na comida.”
–“É proibido entrar bêbado, sair pode…”


Património edificado de Coja
Coja é detentora de algum património edificado sobranceiro ao Rio Alva e algumas referências à vida de outrora, e às tentativas de uma vida melhor nem sempre bem sucedidas. Na margem oposta existe um coreto sobreposto a uma fonte, que era utilizado pelas bandas filarmónicas quando as festas da vila se realizavam nas margens do rio. Conta-se que chegaram a atuar duas filarmónicas, uma de cada lado do rio e algumas vezes entravam em disputa, tentando superiorizar-se uma à outra.



Nesta fonte, hoje um pouco desprezada, era onde em tempos idos se lavava a roupa e no respetivo terreiro era onde a mesma se colocava a corar, quando necessário. O tanque era abastecido por uma bica de água corrente, que nos dias atuais já quase não corre. O coreto hoje é mais um mirante e é a partir dele que se vê melhor o casario histórico do lado oposto.

A partir deste mirante, bem como de qualquer uma das margens do rio, pode ver-se a ponte medieval que faz a ligação entre ambas as zonas da vila. Esta Ponte é hoje um símbolo de relevante importância para Coja. Em 1811, o arco da margem direita foi cortado para impedir a passagem das tropas francesas, impedindo dessa forma o saque da vila. Desconhecendo esse corte as tropas precipitaram-se para o rio onde foram alvejadas a partir da Casa do Dr. Alberto Vale. Na reconstrução, que ocorreu em 1833, foram colocadas duas lápides em granito na sua cortina com a gravação e datas dos respetivos acontecimentos.
“CORTADA PELO GOVERNO EM 1811 – REEDIFICADA EM 1833”
“O.P. COIMBRA EM CACHORADA EM 1893”

No património edificado existem alguns solares que merecem destaque, como a Casa do Dr. Alberto Vale, dominado a ponte. Esta é talvez a casa mais imponente da vila. Outro solar importante é a Casas da Praça, uma casa brasonada dividida em três setores por pilastras. Neste solar destaca-se o trabalho em ferro forjado nos gradeamentos, com elementos florísticos na decoração. O brasão esculpido em pedra foi copiado e faz parte da decoração do gradeamento, dados atestam a nobreza dos seus proprietários cuja família se estendia até ao Pisão e Vila Cova de Alva.

Mais adiante embora não muito longe, encontra-se a Casa do Prior Costa, junto à capela de Santo António e também ela ladeada por uma capela. De destacar o bonito trabalho em ferro do suporte das caleiras. Do outro lado do rio outro solar, a Casa de Santa Clara, com a capela em posição central a dividir dois conjuntos arquitetónicos distintos.


Na vila de Coja existem mais casas solarengas e relativamente fáceis de identificar, basta ir atento…
Ruínas do castelo de Coja
Do castelo de Coja, já desaparecido, apenas resta uma pequena parte da muralha e uma janela medieval. Estava localizado na margem esquerda da ribeira da Mata, na confluência que esta faz com o Rio Alva. Não pelo que vai encontrar mas acima de tudo pela vista sobre a vila, vale a pena subir as escadas e visitar o que resta dele. As escadas de acesso passam despercebidas, ficam do lado oposto à descida para a Capela do Sepulcro

Praia fluvial do Caneiro de Coja
A praia fluvial do Caneiro impressiona pela simplicidade das infraestruturas. É constituída por um açude que criou condições para a existência de dois espelhos de água distintos, permitindo na parte superior a prática de natação, canoagem, gaivotas e até mesmo pesca desportiva. Na parte inferior formam-se dois areais ideais para a permanência dos banhistas junto à água, e o leito do rio com profundidade ideal para os miúdos.

Junto à praia fluvial, na margem direita existe um antigo lagar que foi convenientemente recuperado para funcionar como bar, restaurante e explanada. Na margem esquerda existe outro bar e ao cimo da encosta o parque de campismo, que tem acesso direto à praia fluvial. As margens do rio são compostas por vegetação variada, arborizadas acima de tudo por amieiros, choupos e freixos. De verão ou de inverno, este é um lugar de visita obrigatória aquando uma vinda à vila de Coja.

Piodão – Aldeia de Xisto
Quando se fala de Coja é comum associar a aldeia de Piódão a esta vila. Se for do seu interesse visitar, alertamos que fica um pouco distante e a estrada até lá é típica das estradas de montanha. Ao chegar a Piodão vai saltar-lhe à vista a cor da igreja local e o contraste que faz com o xisto do casario. A quase totalidade das casas tem as portas pintadas de azul, o mesmo acontece com os aros das janelas. Localizada ao fundo da encosta íngreme, a malha urbana da aldeia constitui um cenário único que convida o visitante a embrenhar-se por entre as estreitas ruelas e explorar cada recanto.

Classificada como imóvel de interesse público desde 1978, esta aldeia é hoje uma referência a nível nacional nas aldeias de xisto. As ruas estreitas e sinuosas abrem-se pela encosta acima em recantos diversificados, e sob os nossos pés a presença do xisto, que nos ladeia e mantém presença constante à nossa passagem.

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Desça o vale em direção a Vide e visite Foz D’Égua, se passou por lá e não parou. É uma praia fluvial de águas frescas e cristalinas localizada na confluência das ribeiras de Piódão e Chãs D’Égua, um local paradisíaco entalado entre as encostas da Serra do Açor.

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Mais perto de Coja fica a Cascata da Fraga da Pena, na Serra do Açor, junto à mata da Margaça. Esta cascata é considerada um dos atrativos naturais de maior interesse nesta Serra, um cenário idílico onde a água abre caminho entre a vegetação e a superfície xistosa, e se despenha de uma altura próxima dos 20 metros. As águas que descem esta cascata correm por um vale apertado, criando micro paisagens de vegetação abundante junto da ribeira.

Localização de Coja
Coja fica localizada no centro de Portugal, a 100 km para norte do chamado Centro Geodésico. Dizer como chegar a Coja, com o acesso às novas tecnologias acaba por ser informação ridícula. Tenha como referência a cidade de Coimbra – Coja pertence ao município de Arganil.
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Onde ficar alojado em Coja
- Bem no centro da vila tem o Vila Montês, alojamento do tipo Guesthouse com excelente relação qualidade preço. Com piscina exterior ideal para os dias quentes de verão.
- Também no centro da vila, o Vila Alva Guest House reúne todas as condições para atender os seus requisitos, com a exceção da piscina exterior.
- Continuando em alojamentos “Guesthouse”, com decoração um pouco mais “vintage”, mas charmosa, tem a Casa do Pelourinho, igualmente no centro da vila, tal como o nome sugere, mas comodidades menos espaçosas.
- Iniciamos este artigo com a Vila de Avó, é uma vila que tem muitas semelhanças a Coja, com exceção do relevo. Se for sua intenção instalar-se nesta localidade, recomendamos a Quinta da Tapada, uma casa de 1908, estilo clássico, mas que impressiona pelo serviço que coloca ao dispor do hóspede.
Estas são as nossas recomendações, se nenhuma delas vai ao encontro das suas preferências, faça a sua seleção através dos nossos links.
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