Poço do Inferno – Manteigas

Observei a placa informativa deste trilho, mas nem por isso consegui enquadrar no terreno a planta do percurso, nada me fazia parecer que o ponto de partida estava logo ali à minha frente, e ao lado da dita placa. Mal me apercebi das primeiras marcações do trilho pintadas no xisto, bastaram breves segundos para iniciar a caminhada. Começo a caminhar, com o cuidado imposto pelas condições iniciais do percurso, quando chego a parte mais elevada, veio à memória uma aventura que tive na ideia realizar durante um fim de semana na data em que cumpri o serviço militar.

À direita na encosta rochosa, a fronteira entre a sombra e o sol é aproximadamente a zona por onde o trilho passa.

Sendo jovem, e com a preparação física que dispunha na altura, após ver um programa na TV onde se falava que o rio menos poluído de Portugal era também um dos cinco rios menos poluídos da Europa, surgiu-me a ideia de o percorrer pelas suas margens desde a nascente até à foz. Para tal seriam necessários alguns dias, e esta não era uma aventura para realizar sozinho…, como não consegui aliciar mais alguns colegas a aventura caiu por terra… Hoje olho para trás e sinto ter sido ambição a mais, mas não uma aventura disparatada, até porque duas décadas mais tarde o município local teve a ideia pioneira de construir uns passadiços nas suas margens, e hoje encontram-se bem popularizados entre nós os PRs e GRs, diria até que viraram moda, e levam as pessoas a percorrer e a conhecer locais que de outra forma certamente nunca o fariam nem conheceriam.

Do outro lado do vale, la no cimo a mancha avermelhada das faias de S. Lourenço

Para quem desconheça o lugar e pretenda fazer este trilho, como eventualmente também desconhece a sua localização, se vai a ser orientado pelo GPS recomendo o seguinte: Em primeiro lugar coloque como destino o viveiro de trutas de Manteigas, uma vez aqui pode até aproveitar para fazer uma visita ao viveiro. Se não for essa a sua intenção, procure por aqui onde parar por breves momentos e coloque então no GPS, Poço do Inferno. Se desconhece a zona e coloca este destino quando ainda se encontra dentro da vila, pode ser encaminhado para o percurso mais perto, e ao seguir por ele vai aperceber-se que não é o mais adequado. É um caminho de terra saibrenta apenas transitável por veículos 4×4 e daí para cima…

Caminho seguido inicialmente mas não adequado para veículos como o que se vê na imagem.

O dia começou relativamente cedo. Devido à situação pandémica que atravessamos, no hotel onde fiquei alojado o pequeno almoço era servido em grupos pequenos, tendo o cliente de escolher a hora pretendida. Informei que seria as 8 horas, a mesma que iniciavam o serviço do pequeno almoço, dessa forma teria mais tempo para continuar a conhecer a zona. Meia hora depois subi ao terraço do hotel para contemplar a vista ao redor.

É uma vista panorâmica maravilhosa, com as cores de Outono a pintalgarem as encostas de amarelo torrado pelo meio do verde das árvores de folha persistente, ou perenifólias. Os raios solares matinais chegam primeiro às encostas viradas a nascente…

Desconhecendo, e após a selecção do percurso errada nas opções apresentadas pelo GPS, optei por seguir primeiro em direcção ao viveiro de trutas e fazer-lhe uma visita.

Viveiro de Trutas de Manteigas

As duas espécies de truta produzidas aqui são a truta Fário e a truta Arco-íris, sendo a primeira a maior de ambas as espécies. Nos aquários mais ao fundo, (do lado debaixo da estrada) encontram-se as reprodutoras. Começam a reprodução com cerca de 3 anos de idade e assim se mantém até aos 7 anos. Na parte superior encontram-se os aquários maiores, onde se dá o processo de crescimento, e no limite superior, dentro de um barracão é onde se dá o processo de fecundação.

A truta de Manteigas é uma truta de crescimento mais lento devido às águas frias que vêm da serra, por esse motivo tem também um sabor mais apurado à mesa. É raro haver um restaurante nesta localidade que não tenha um prato com esta espécie de peixe no seu cardápio. Sendo este um espaço do ICNF, o principal objectivo deste viveiro é repovoar outros rios, no entanto, e mais uma vez face à crise pandémica, nos dois últimos não houve grande necessidade de repovoamentos, por isso à data actual a quantidade existente nos aquários era considerável.

À data da visita, ao lado dos aquários as cores de Outono ali presentes. O sol ainda não tinha atingido esta zona, e com a água fria sempre a correr nos aquários, o ar sentia-se também um pouco frio, mas o dia ainda estava no seu início.

Seguindo para o destino pretendido…

Seguindo agora com destino ao Poço do Inferno, ao longo da meia dúzia de quilómetros que tenho pela frente sou tentado em parar várias vezes pelo caminho para algumas fotos. Aquilo que os olhos contemplam é algo difícil de descrever,… É maravilhoso conduzir numa estrada assim, com esta paisagem, onde predominam os amarelos do Outono, um cenário que quase parece ter sido extraído de um conto de fadas. Após duas ou três fotos retomo a marcha, para voltar à tentação de parar novamente pelo mesmo motivo, porque cada lugar novo parece ser ainda mais bonito que o anterior, e esta tentação repetiu-se mais algumas vezes até à chegada. Vi por aqui árvores pela primeira vez, que desconhecia até existirem cá em Portugal, como por exemplo o pinheiro-de-oregon.

Inicio do Trilho.

A parte inicial do percurso não é “pera-doce”, requer algum cuidado, vestuário confortável, calçado adequado para montanha, e não é aconselhável fazer com tempo chuvoso. Também não é aconselhável para quem esteja a recuperar de alguma patologia de mobilidade, a parte inicial é exigente! Actualmente o percurso encontra-se bem marcado. Se começar pela zona xistosa, a parte inicial do percurso tem como principais atractivos as cascatas e o cantar da água cristalina que desce serra abaixo, ora contornando, ora caindo melodiosamente no fundo rochoso ou nos pequenos charcos de água que ao longo dos anos se foram formando. A musica vai variando, consoante as formas da linha de água. Por aqui, em algumas zonas do percurso, é notória a colocação de algumas lousas de xisto de forma meticulosa para permitir melhor circulação aos caminhantes.

Um pouco mais acima o trilho atravessa uma pequena ponte de madeira, seguindo agora em sentido oposto pela outra margem, permitindo ver a zona por onde caminhamos anteriormente. Neste momento a altitude é considerável face ao lugar onde o trilho inicia, em distância parece ser ali pertinho. La ao fundo, no estacionamento, visto aqui de cima o carro parece minúsculo.

O Plátano Bastardo, a Faia, o Pinheiro-de-Oregon, o Abeto e o Castanheiro, são algumas das espécies que mais se encontra por aqui, no entanto existem outras, algumas das quais um pouco raras. A vista aqui de cima, entre outros permite-nos contemplar o vale do Zêzere e o vale da ribeira de Leandres.

Ruinas de um casebre que em tempos terá sido apoio de agricultura em socalcos por aqui existentes.

Daqui para a frente o trilho muda de aparência, mas em momento algum perde o seu encanto, antes pelo contrário. A folhagem dos castanheiros caída no chão é tanta que quase nos oculta o trilho, e como não choveu nos últimos dias, algumas vezes aqui e ali sente-se o estaladiço das folhas debaixo dos pés à medida que as pisamos. É um lugar que nos apaixona!…

O trilho passa aqui, mas quase nem se vê de tanta folhagem. O Outono no seu esplendor.

Esta parte do trilho termina com a chegada à estrada asfaltada, mas o seu encanto ainda não termina aqui, até chegar ao ponto de partida são mais 950 metros onde se mantém o contraste do verde com os dourados do Outono, e o botão da maquina continua a ser solicitado para mais umas fotos.

Cascata do Poço do Inferno

Por fim, a cascata propriamente dita do Poço do Inferno. Não é de acesso muito fácil, mas é seguro, existem uns corrimãos que facilitam chegar até bem perto dela…, e mais uma vez a melodia das suas águas batendo nas rochas descendo encosta abaixo.

A jusante da ponte existe um espaço de pic-nic, de acesso por escadas e equipado com mesas para quem queira desfrutar de uns momentos de laser em harmonia com a natureza.

Tentilhão fêmea que destemido se aproximou perto de mim em busca de comida.

No regresso, a meio do caminho existe um miradouro a partir do qual se pode avistar, além do vale do Zêzere, também a encosta do lado oposto, e no cume o posto de vigia juntamente com a mancha de um amarelo avermelhado: as Faias de S. Lourenço

Rota do Poço do Inferno

  • Extensão: cerca de 2.5 km
  • Duração estimada: 2 horas (dependendo das paragens…)
  • Grau de dificuldade: Elevado na parte inicial
  • Tipo de percurso: Circular
  • Desnível do percurso: 170 metros
  • Sugestão: Existem caminhos que apesar de cansativos fazem-se melhor a subir, por isso comece o percurso no sentido anti-horário, comece a subir ali mesmo ao lado da placa informativa, à sua frente encosta acima…

Apesar de inicialmente calcular ter margem de tempo suficiente, ao contemplar todo este cenário os cálculos acabaram por sair errados, e o tempo passou mais rápido do que inicialmente imaginava. Para o almoço deste dia, no mesmo lugar do dia anterior, escolhi um prato à base de Feijoca, uma espécie de feijoada mas com um feijão de dimensões maiores que as habituais. Curioso que actualmente tem sido vista nas prateleiras de alguns hipermercados. Em Manteigas este produto é muito usado na culinária. Por exemplo, no dia anterior, ao jantar a sobremesa foi um doce à base de feijoca.

Feijoada de Manteigas com feijoca, enchidos e carne de porco.

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